sábado, 11 de fevereiro de 2012

Entrevista Exclusiva com o Professor Pedro Demo

Posted by Julio Neto On sábado, fevereiro 11, 2012 2 comments

REALIZADA EM:   08 / 02 / 2012

Professor Pedro Demo

A História está em constante construção, por isso, quando os parâmetros da convivência social se tornam obsoletos para uma época, um pequeno “tremor” pode trazer à luz a realidade até então suprimida, não podendo nesse ponto ser superada. Diante disso, é possível inferir que a educação provoca a crise, o choque entre o novo e o velho, pois é no conhecimento por ela fomentado que reside a reconstrução das idéias. 

Analisando o papel da educação na sociedade contemporânea, o HistoriaNews entrevista um dos mais brilhantes pesquisadores brasileiros: o Professor Pedro Demo. Autor de vários livros, em alguns deles Demo discorre acerca das condições ideais para o desenvolvimento da educação e enfatiza a importância da pesquisa no ensino em todas as suas modalidades.


Professor Pedro Demo, de antemão o HN agradece a sua enorme generosidade em nos conceder um pouco do seu tempo para a realização desta entrevista.

AUTOBIOGRAFIA: Professor aposentado e Emérito da UnB, Departamento de Sociologia. 94 livros nas áreas de sociologia da educação/política social e metodologia científica. PhD em Sociologia pela Alemanha (1971). Pós-doutor pela UCLA/Los Angeles.

TEMA  Educação e Desenvolvimento Social

ALGUMAS OBRAS –

Pobreza Política;

Politicidade: Razão Humana;

Política Social, Educação e Cidadania;

Solidariedade Como Efeito de Poder;

Educação e Conhecimento: Relação Necessária, Insuficiente e Controversa;

Charme da Exclusão Social;

Professor do futuro e reconstrução do conhecimento;

Cidadania Pequena;

ENTREVISTA
HN Pergunta: Professor Pedro Demo, o Brasil é um país de proporções continentais e, talvez por isso, se desenvolva de forma muito desigual, fato que facilita o fomento de políticas assistencialistas e do famoso clientelismo. Sobre isso, o seu livro Solidariedade Como Efeito de Poder apresenta os “perigos” dessa política à construção da plena cidadania. Nessa perspectiva, qual a sua concepção acerca de programas como o PROUNI e políticas como as cotas para negros e índios nas universidades públicas?

Pedro Demo: Não se trata de combater a “assistência” (imprescindível para quem não pode se autossustentar), mas o assistencialismo. A “cidadania assistida”, se ficar apenas nisso, torna-se assistencialista, porque fixa o marginalizado como “beneficiário” passivo, sem falar que assistência não combate a pobreza (para combater o pobre precisa ser protagonista, não só beneficiário).

O PROUNI contém uma perspectiva importante: acesso à formação superior, um anseio de muita gente no país, sem falar que o país tem uma taxa muito baixa de pessoas com nível superior.  Perdeu-se, porém, a oportunidade de “limpar” a área das instituições privadas, condicionando o acesso à qualidade da oferta. Diria que grande parte dos diplomas obtidos são obsoletos – angariados a custa de aulas e provas instrucionistas. Esta crítica, contudo, não pode negar a importância de aumentar significativamente o acesso à formação superior para todos, com qualidade adequada.

Quanto às cotas: primeiro, as universidades federais sempre foram “cota” dos mais ricos – sempre – desde o início, fraudando a condição de instituição pública e gratuita para que todos possam ter o mesmo acesso. Assim, a cota dos negros e índios é uma “contracota”, uma resposta. O que não aprecio nisso é a seleção por cor dos negros (é um vexame – na UnB, por exemplo, dois gêmeos negros pleitearam, um passou, outro não...) – poderia ser feita pela frequência a escolas públicas, por exemplo. Num país tão desigual, é farsa afirmar que todos possuem o “mesmo” acesso...


HN Pergunta: Professor, num país com tantos e variados problemas sociais, estaria na educação o mais grave entre todos esses males?

Pedro Demo: Dentre tantos problemas tão graves, não saberia dizer qual o mais grave. Saberia, porém, sugerir que problemas de educação (básica, sobretudo) comprometem profundamente o desenvolvimento do país (inclusive da produtividade econômica), em especial a qualidade da democracia. Mantemos um sistema de ensino instrucionista, arcaico, caduco, não voltado para o direito dos alunos de aprenderem bem, e baseado na transmissão reprodutivista de conteúdos.


HN Pergunta: O Brasil é considerado por muitos, um exemplo de democracia e de pleno exercício da cidadania”. Essa é uma máxima que ecoa país afora e faz parte do ideário popular. Professor Pedro Demo, o senhor concorda com essa afirmação?  
Pedro Demo: Não concordo, pela razão simples de que a política social – quase sem exceção – é coisa pobre para o pobre (exemplos, escola pública, sistema SUS, segurança pública, etc.). Ultimamente houve crescimento econômico um pouco mais bem repartido (“novas classes médias” – assim se diz), o que é muito bom, mas o país é um dos cocentrados do mundo em termos de acesso à renda. Não é à toa que no IDH ocupamos em 2011 o lugar 84. O nível de corrupção é alarmante, endêmico, devorando parcela enorme dos recursos públicos. Uma população que não controla seus mandantes não vive numa democracia.


HN Pergunta: Muito se ouve falar em novos métodos de ensino, conceitos de avaliação, entre outras coisas. O senhor acredita que essas “inovações” já tem provocado mudanças reais na práxis do educador brasileiro? Os resultados dessas mudanças são positivos? 

Pedro Demo: Nosso sistema de ensino é medieval, fincado na aula instrucionista (na escola e na universidade), sem falar que o MEC é uma instituição que se perdeu no tempo – atrasadíssima. Muitas inovações são apenas modismo, mas parece-me fora de dúvida que o sistema não pode ser apenas “reformado”; precisa ser transformado, de alto a baixo. Muitos usam novas tecnologias para “adornar” a aula (um defunto), porque persistem em métodos de mera transmissão de conteúdos. Na sociedade do conhecimento o diferencial está em saber produzir conhecimento próprio. Estamos a anos-luz de distância dessa meta, mesmo nas melhores universidades.


HN Pergunta: Nesse mundo das tecnologias, uma enorme quantidade de informação é produzida e disseminada diariamente, aproximando o jovem a todo tipo de conteúdo. Qual deve ser a relação entre a escola e o conhecimento frente ao fascínio provocado pelas novas mídias da informação?  

Pedro Demo: Primeiro, sob “o olhar do educador”, não cabe nem ser basbaque, nem resistente às novas tecnologias. Pode-se perfeitamente aprender bem sem tecnologias. Segundo, as novas tecnologias vieram para ficar, não havendo qualquer chance de as ignorar. Toda ocupação mais importante já exige computador e internet. Terceiro, o correto seria facultar acesso de todos os estudantes e professores às novas tecnologias, em especial nas escolas públicas, porque a melhor inclusão social se dá pela aprendizagem escolar. Quarto, novas tecnologias são ambíguas: servem para o bem e para o mal. Não se pode dar acesso indiscriminado às crianças na internet, bem como não cabe apenas censurar. A questão maior, porém, é a preparação dos professores: se eles não conseguem aprender bem com computador e internet, esta façanha não pode ocorrer com os estudantes. Por exemplo, os “laboratórios de informática” nunca funcionaram porque nunca fizeram parte da aprendizagem dos professores.


HN Pergunta: Com base em teóricos e em idéias disseminadas nos cursos de graduação e aperfeiçoamento profissional, o incentivo ás atividades de pesquisa na educação básica se tornou algo comum nos planejamentos de ensino nos últimos anos; não obstante, na maioria das vezes não há clareza quanto aos métodos, os objetivos desse trabalho e, nem mesmo, ao próprio conceito de pesquisa. Diante disso, como a pesquisa no ensino básico deve ser encarada? Ela precisa ser concebida como uma atividade de “iniciação” científica ou deve ser tomada apenas em seu caráter educativo?

Pedro Demo: Toda boa ideia pode virar modismo. Aconteceu com “pesquisa”. Do ponto de vista da formação estudantil, pesquisa propõe duplo horizonte: i) aprender a produzir conhecimento científico com método adequado, ainda que sempre no nível do estudante; ii) formar-se melhor produzindo conhecimento próprio. Fala-se hoje, em especial em ambientes virtuais de aprendizagem e por conta, sobretudo do sucesso de videogames sérios (tipo SimCity), de pedagogia da problematização: em vez de dar aula, o professor formula problemas a partir da grade curricular, incitando os estudantes a resolverem, tendencialmente em grupos. É a mesma proposta do “educar pela pesquisa”. Pesquisa não é qualquer coisa, nem coisa do outro mundo. É preciso saber formular um conceito e uma prática de pesquisa adequada a cada grupo de estudantes.


HN Pergunta: Nos últimos anos, através de incentivos como bolsa alimentação, a escola brasileira tem conseguido atrair um contingente cada vez maior de alunos. O senhor considera isso um avanço? 

Pedro Demo: É uma “obrigação” constitucional, antes de tudo. No entanto, considerando que, na população de 15 a 17 anos, apenas 55% possuem o ensino fundamental completo, ainda não fizemos, a rigor, nada: avançamos em quantidade, mas nada em qualidade. Na prática, grande parte dos nossos estudantes perde seu tempo na escola escutando aulas copiadas feitas para eles copiarem. Desafio maior é a valorização docente, duplamente: remuneração muitíssimo maior (um piso salarial de mil reais é um desaforo) e formação extremamente mais acurada, junto com formação continuada.


HN Pergunta: Sou professor e, dentro da escola ainda é comum participar de uma antiga discussão: quem é o grande responsável pelo lento desenvolvimento da educação brasileira: a família, a escola ou o Estado? Como o senhor se posiciona em relação a esse problema professor Pedro Demo?

Pedro Demo: A responsabilidade é de todos, porque o projeto nacional de educação só pode ser de todos. Destaco, porém, um dos desafios mais profundos: cuidar do professor. Ele não é “culpado”, é “estratégico” – não se pode fazer nada de importante em educação sem cuidar do professor.


Professor Pedro Demo, o HN agradece a sua participação e a sua gentileza em nos atender tão prontamente. Isso nos motiva a continuar disseminando boas ideias e informações relevantes numa das mais democráticas mídias da informação: a internet.


Edição: Julio Neto Alves 

Equipe HistoriaNews

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